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Comentários : Rabbit Proof Fence (A Vedação)


Com Everlyn Sampi, Tianna Sansbury, Larua Monighan, Ningali Lawford, Kenneth Branagh, realização de Phillip Noyce (2002)

A LEGALIDADE CRIMINOSA

Quer o destino que o mercado de exibição de cinema em Portugal estreie em datas quase coincidentes dois filmes com a assinatura do realizador australiano Phillip Noyce. Dois filmes aliás, “A Vedação” e “O Americano tranquilo”, que permitiram desde já que o cineasta do país dos cangurus fosse distinguido pela organização americana “National Board of Review” como o realizador do ano em 2002.

Essa distinção é tanto ou mais importante dado que a referida entidade congrega nas suas hostes representantes das várias áreas criativas de cuja união de trabalho se edifica a arte cinematográfica: desde escritores e músicos, passando por actores até representantes de produtoras. Noyce, que curiosamente detém na sua filmografia títulos como “O Coleccionador de Ossos”(1999) e “O Santo”(1997), mergulhou neste filme em vertentes de acentuada desumanidade do próprio estado contra os cidadãos ligadas às raízes históricas e civilizacionais do seu país nos primórdios do século passado.

É sabido como os diversos povos colonizadores abusaram por todo o mundo da crueldade contra as populações indígenas em nome de uma lamentável tentativa de subordinação destas aos seus hábitos e regras desvirtuando a natureza dos locais. A bandeira que hasteavam soava a falsidade e eram hipócritas as razões aventadas de progresso e civilização já que estas eram razões que se prendiam com uma insustentável pretensão: a de que a sua era uma raça superior à dos povos nativos.

Nesse âmbito, o filme relata uma incrível história verídica ocorrida em 1931. Molly Craig (Everlyn Sampli), uma menina aborígene de apenas 14 anos , a sua irmã Daisy (Tianna Sansbury) de 8 e a prima Gracie (Laura Monaghan) de 10 anos, são compulsivamente retiradas às suas famílias e levadas ao abrigo das absurdas leis australianas para uma instituição estatal onde a língua inglesa era obrigatória e deveriam ser educadas para servir em casa de brancos. No entanto, juntas empreendem uma fuga de cerca de 2400 quilómetros ao longo de uma vedação para coelhos que divide a Austrália revelando com esse gesto um inacreditável estoicismo na dolorosa caminhada que pretendiam as levasse de volta às suas mães.

Durante semanas por um agreste percurso lograram iludir a fome, o frio, o calor, a chuva, a polícia e um experiente batedor aborígene ao serviço do governo. É notável a forma singela como a câmara de Noyce capta o aroma de uma Austrália interior abdicando de artifícios narrativos de modo a privilegiar a dimensão ao mesmo tempo épica e trágica do feito de, sobretudo, uma menina ainda criança que lidera uma pequena revolta contra a usurpação cultural e familiar de que é vítima. Refira-se também a rigorosa direcção de actores que permitiu uma interpretação sem mácula a qualquer uma das pequenas actrizes que corporizaram as jovens em fuga.

Isto num elenco onde se observa ainda a presença de um nome grande do cinema europeu e mundial: Kenneth Branagh. Ele, com a capacidade dramática que lhe é reconhecida, corporiza Mr. Neville, o frio e decidido elemento ligado à administração que acredita piamente na bondade da sua autista e detestável missão de extermínio de um povo. Destaque-se a agradável e adequada banda sonora da película onde pontifica também um nome grande mas este da música contemporânea, o de Peter Gabriel. No resto, é importante referir que «Rabbit-Proof Fence», no seu título original, foi nomeado para dez prémios do cinema australiano e foi a fita mais rentável no país no ano de 2002.

Quanto a Molly Craig é hoje uma senhora já com 85 anos sendo ainda dona de uma assinalável vitalidade tal como a irmã e colega de aventura Daisy. A lei a que corajosa e justamente se furtaram foi banida há poucas décadas atrás mas antes permitiu que fossem também a Molly retirados alguns dos seus filhos. Esse não foi o caso de Doris Pilkington Garimara, a filha que escreveu o livro em que o argumento do filme se suporta e adaptou para o cinema. Phillip Noyce construiu pois um excelente filme onde mais uma vez se relembra a crueldade perpetrada por seres humanos contra seres humanos desta feita em nome de um muito injustificável e enviesado conceito de progresso da humanidade. A ver para não esquecer.

Classificação: ***

Crítica de Joaquim Lucas
 
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