
Com Richard Gere, Diane Lane, Olivier Martinez, Chad Lowe e
Margaret Colin, realização de Adrian Lyne (2002)
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NO INICÍO O VENTO, NO FINAL A TEMPESTADE
O realizador britânico Adrian Lyne, depois de um pronunciado
interregno, volta às salas de cinema com uma obra que retoma
uma temática em si recorrente, a infidelidade conjugal, e um
género em que se tem vindo a especializar, o “Thriller” erótico.
E se em obras anteriores sobre o tema da infidelidade, Lyne
construía algo muito semelhante ao que se poderá designar como
um exercício que advertia para os perigos de quem incorria na
sua prática, recorrendo a situações algo atípicas e mesmo controversas,
como são os casos de «Atracção Fatal» (1987) e «Proposta Indecente»
(1993), em «Infiel» pode reconhecer-se uma maior afinidade da
abordagem cinematográfica com situações do comum de alguns casais,
ainda que a narrativa acabe no domínio dos perigos que se arriscam
e a tragédia que eles podem alcançar.
Claro que é legítimo que não nos esqueçamos em momento algum
que este é um filme que tomou como modelo para si mesmo um genial
autor francês, Claude Chabrol, e o seu trabalho em «La Femme
Infidèle» (1969). «Infiel» obedece a uma estrutura que se idealizou
de forma metódica e algo tradicional. O filme inicia-se com
uma família que, desfilando no seu próprio cortejo de tédios,
se encontra rendida a uma aparente felicidade mas cujo dia-a-dia
sofre os efeitos desse ritual de acções em que se terá convertido
a sua vida em comum. Connie (Diane Lane) e Edward Sumner (Richard
Gere) são um casal de cerca de quarenta anos de idade, da classe
média alta americana, que vive conjuntamente com o pequeno filho
de ambos nos subúrbios da grande cidade. Até que num dia de
ventania quase ciclónica, Diane conhece um homem mais jovem.
Ele é Paul Martel (Olivier Martinez), um francês que negoceia
em livros por profissão e seduz como devoção. Diane entra então
num processo de conflito interno em que a alma acaba por ceder
àquilo que o seu corpo desejou intensamente experimentar. Dividida
a partir de então por sentimentos como a culpa, o medo e a euforia
do prazer, pode dizer-se que, servindo-me eu de um ditado quase
tão antigo como o tema em análise e que é até sugerido pelo
próprio filme, Diane ignorou que pelos ventos semeados naquele
dia corria o risco de no futuro vir a colher tempestades. Embora
num saldo final extremamente positivo, deve dizer-se que a metade
inicial do filme resvala em muito para o melodrama romântico
que, embora bem interpretado e filmado, não consegue atingir
a necessária espessura dramática que uma abordagem destas deve
implicar.
Inclusivamente, não é totalmente conseguido o encadeamento trágico
que a acção de infidelidade cometida vai mexer com aquela família.
Especificando melhor o que pretendo dizer, vêem-se os actos
mas não se sente nunca o drama que eles deveriam prenunciar.
Onde o filme atinge o seu auge é precisamente na metade final.
E se, curiosamente, isso acontece quando Gere aparece como elemento
decisivo para o evoluir da narrativa, é igualmente por esta
altura que a linguagem dos corpos dos amantes em contravenção
melhor se expressa. Aquilo que se pressente nesta realização
de Adrian Lyne, é uma sua maior predisposição para a apreciação
de questões de fundo como os conflitos internos do ser humano.
Em «Infiel», Lyne está longe da preocupação ditatorial da estética
por si antes assumida e em que «9 Semanas e ½» representa desse
facto o expoente máximo, em meu entendimento. É de realçar igualmente
a forma como Lyne definiu a relação marginal apaixonada mas
que é sobretudo física, carnal. Relativamente ao elenco, o destaque
vai quase por inteiro para Diane Lane a quem até se desculpa
a demasiado óbvia demonstração que faz da divisão entre culpa
e prazer que a sua personagem carrega pesadamente durante a
viagem de comboio após a primeira vez que manteve relações sexuais
com o seu amante.
Mas deve também ser-se justo e destacar-se a generosidade do
papel de Gere e o bom trabalho de “casting” efectuado com Olivier
Martinez. Em resumo, sendo claramente em matéria formal e de
estética um produto “Made in Hollywood”, e ainda que falhe um
certo estatuto de maioridade cinematográfica, «Infiel» acaba
no entanto por surpreender pela positiva e revelar-se um excelente
pretexto para uma deslocação às salas de cinema.
Classificação: ***
Crítica de Joaquim
Lucas |