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Comentários : Spirited Away (A Viagem de Chihiro)


Com Daveigh Chase e Suzanne Pleshette, realização de Hayao Miyazaki (2001)

TROVA DO VENTO QUE PASSA

O cinema de animação está em festa. Pela mão da nova distribuidora New Age Entertainment, chega às nossas salas a última obra-prima do mestre japonês Hayao Miyazaki. E estão ambos de parabéns, distribuidora e realizador. O velho sábio japonês porque teve o condão de arquitectar uma prodigiosa viagem ao maravilhoso universo da fantasia, obrigando-nos a uma mirada nostálgica no baú das nossas memórias de criança. Isto depois do sucesso ainda recente de outra mágica incursão no mundo da animação idealizada em «A Princesa Mononoke».

E a nova distribuidora portuguesa, permita-se-me a distinção até porque é justo fazê-lo, porque, pelo menos até ao momento, faz questão de primar as suas escolhas de filmes a exibir por um invulgar talento na tão difícil conjugação da qualidade cinematográfica com um certo potencial dos filmes em questão de abrangência de públicos. Aconteceu assim com o filme de culto «Donnie Darko», repetiu-se o fenómeno com a comédia «A Residência Espanhola» e agora este prodigioso «A Viagem de Chihiro», nunca será demais repeti-lo, promete fazer de novo as delícias de um certo público interessado em cinema, mas não apenas. A título de curiosidade, diga-se que o próximo filme calendarizado pela distribuidora é o tão ansiado «Cidade de Deus», de Fernando Meirelles.

Mas, voltando à obra de Miyazaki, que singular filme de animação é afinal este que espantou o mundo ao arrebatar, embora dividindo a distinção com outro filme, o Urso de Ouro no Festival de cinema de Berlim em 2002? Acreditem, meus caros, não vou exagerar na descrição que se segue. Isto porque o filme é qualquer coisa de indizível, é uma maravilhosa jornada em torno de elementos tão fascinantes como o serão sempre a ilusão e o sonho, é uma delirante fábula que nos surge reavivando em nós quimeras de outrora, é aventura empolgante, é drama pungente, é divertimento encantador.

De que forma assim consegue ser? Tudo se inicia quando uma família composta por pai, mãe e filha viajam no seu automóvel para consumarem uma mudança de residência. Entretanto, enganam-se no caminho e deparam com um estranho burgo, aparentemente abandonado e a fazer lembrar o que outrora fora um parque de diversões. Conquanto deserta de gentes, os restaurantes oferecem uma panóplia de fumegantes e deliciosos pratos acabados de confeccionar. Chihiro, que é o nome da menina de dez anos, receia tudo o que a rodeia mas observa impotente o ataque alarve dos pais às iguarias depostas no local. Mas este é apenas o simples mote para a complexidade que se segue de um filme admirável.

A povoação onde haviam acidentalmente desembocado, subsiste dominada pelas figuras mais estranhas, por fantasmas atemorizadores, animais fabulosos e seres encantados e encantadores. Voltando um pouco atrás no tempo, refira-se que logo após ter concluído «A Princesa Mononoke», uma obra absolutamente exigente e desgastante para todos quantos nela haviam estado envolvidos, Miyazaki, ele mesmo vítima de um esgotamento nervoso, anunciara o fim da sua carreira. No entanto, a importância vital do seu trabalho para a sobrevivência dos Estúdios Chibli, e certamente que alentado pelo inesperado sucesso mundial do filme, levaram-no a reconsiderar esse seu propósito.

E em boa hora o fez. Porque acabou por abraçar um projecto, que nem sequer era o que propusera inicialmente, absolutamente cativante e deslumbrante. Sofrendo influências ocidentais, como serão exemplo «A Odisseia» ou mesmo «Pinóquio» - veja-se o que sucede aos pais de Chihiro castigados pela sua gula -, é assente em elementos ligados à tradição – a casa de banhos onde quase tudo sucede é só um exemplo mínimo disso – e mitologia orientais que o filme potencia questões complexas e fundamentais da existência e do crescimento tornando-se desse modo numa obra máxima do cinema. Chihiro, tornada Sen no mundo onírico em que mergulhara e necessita sobreviver, logra alcançar os seus objectivos pelo respeito e carinho que a atitude por si tomada conquista num meio inteiramente adverso.

E se bem que são visíveis valores inerentes à lealdade, à amizade e honra, seria demasiado simplista circunscrever o filme à exaltação única desses valores. Não, a sua essência é ao mesmo tempo tão complexa quanto, em aparente oposição, parte de simples premissas enraizadas na cultura popular oriental. Tal qual, curiosamente, sucede com a sua concepção técnica já que tudo começou por ser desenhado à mão até à digitalização final e utilização das mais avançadas técnicas de animação. «A viagem de Chihiro» é, acima de tudo, um filme radioso e estimulante, uma carinhosa e mágica visita às mais penetrantes quimeras do homem ao longo do seu processo de crescimento.

E mais que tentar compreendê-lo há que deixar que a sua emotividade nos percorra o corpo para nos poisar na alma. Muito por culpa de uma certa assombração e ambivalência das personagens que povoam a história, o filme parece ainda sussurrar aos nossos ouvidos um poema ora triste ora enigmático mas sempre cativante. É que, como alguém cantou um dia o poeta, «A viagem de Chihiro» é “trova do vento que passa”.

Classificação: *****

Crítica de Joaquim Lucas
 
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