
Com Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law, Alfred Molina e Jennifer
Jason Leigh, realização de Sam Mendes (2002)
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Crítica de Pedro
Serra |
CHICAGO, 1931: A MORTE COMO SOLUÇÃO PARA A VIDA
Sam Mendes realizou, em 1999, «American Beauty». A película
foi estrondosamente recebida pelo público de todo o mundo, também
pela crítica, e foi igualmente um sucesso na atribuição dos
Oscars pela Academia de Hollywood. Independentemente de outras
virtudes que inegavelmente contribuíram para esse êxito, «American
Beauty» espantou pela sua narrativa em forma de crítica mordaz
sem no entanto ser amarga. O filme era (é), embora disfarçado
de comédia, uma inteligente e arguta análise da sociedade americana.
Essa foi a história que nos foi contada no cinema pela mão do
realizador britânico que vinha do teatro e que provou, talvez
por isso mesmo, uma especial propensão para dirigir actores.
Assim sendo, aprovado como contador de histórias, a Mendes restava
efectuar mais um teste proposto por si mesmo: provar que também
é um grande cineasta. Nesta linha de raciocínio, surge «Road
to Perdition». E no âmbito do objectivo que perseguia, «Road
to Perdition» não só demonstra mais uma vez a argúcia do realizador
como se revela um objecto absolutamente inatacável como exercício
de cinema.
Tecnicamente elaborado e deslumbrante visualmente, o filme diz-nos
aquilo que muitos já suspeitavam: Sam Mendes é um grande cineasta.
Viajando através do tempo, Sam Mendes recua décadas atrás para
se situar no ano de 1931. Nos EUA vive-se então o período da
Depressão Económica, de barbárie social cujos meandros se assemelham
a uma espécie de selva humana. Numa época em que vigoravam leis
como a que ficou conhecida como a Lei Seca, em que a corrupção
se assemelhava a uma instituição estabelecida, floresciam os
grupos de “gangsters” que dominavam o mercado negro.
Eram os tempos de Al Capone e de Nitti e dos conflitos que vigoravam
no seio destes grupos, grupos disciplinados por comportamentos
subordinados em única instância à honra e à lealdade entre os
seus membros. E quando os desvios aconteciam tudo se resumia
a uma estranha sacralidade desde o ponto de vista da morte.
Ou seja, vivia-se uma época em que as dívidas insolúveis se
pagavam com a morte do desgraçado em dívida. Ela, a morte, saldaria
todas as contas e apaziguaria as almas em desassossego. Mas,
estranhamente, havia também um conceito nobre da instituição
familiar, como se esta funcionasse como resgate emocional para
estes impiedosos “gangsters” e os acalmasse interiormente pelo
mal praticado.
E tudo isto está em «Road to Perdition», o novo filme de Sam
Mendes. Mas não só. A ambiência do filme é sombria, fatalista.
E enquanto Mendes filma as ruas e nos leva numa viagem até Chicago,
ouvem-se tiros e chove intensamente. Na nossa viagem, sentados
no escuro, olhamos as caras dos mortos, o esgar da dor que antecedeu
a morte, o seu olhar vidrado a denotar a perplexidade que adivinhava
essa mesma morte. Já a história, essa, ao contrário do que se
poderia esperar, é aqui algo secundária, serve sobretudo de
passaporte para entrarmos naquele mundo. No mundo do filme negro
rigorosamente interpretado pelo cineasta britânico.
Mas, ainda assim, Perdition (que simboliza a narrativa) tem
um relevante peso na estrutura do filme e constitui-se como
suporte para a acção dramática deste no seu todo. Porque é para
evitar que o seu filho Michael (Tyler Hoechlin) tome o mesmo
caminho que anos antes ele mesmo tomara, o caminho da perdição,
que o “anjo da morte” Michael Sullivan (Tom Hanks), enfrenta
num desafio capital aquele que desde quase sempre fizera de
seu pai e em nome do qual matava sem pestanejar. E talvez o
pequeno Michael, no final, possa conseguir lançar-se à estrada
para Perdition em sentido inverso, como que num retorno à condição
que afinal nunca abandonara.
Até lá, os dois homens em confronto, Michael Sullivan e John
Rooney (Paul Newman), mais não fazem que defender os seus próprios
filhos. Mendes, realce-se, joga então mais uma vez as suas peças
num tabuleiro de sentimentos contraditórios provocados pela
traição e pela perda. O amor confunde-se com o ódio, a lealdade
mudou de significado e tornou-se numa questão de sobrevivência,
e a morte de uns – novamente a morte – surge como único caminho
para prosseguir a vida de outros.
Apesar de ser um filme de exaltação assumida das suas características
formais, pelo que atrás se escreveu percebe-se no entanto que
«Road to Perdition» suporta ainda uma relevante história de
vida e morte, de amor e ódio. E se chega a perder alguma consistência
em termos de credibilidade dos factos – o que acontece efectivamente
em uma ou duas situações, e que se revela como única fraqueza
do filme e potencial alvo de ataques à sua concepção – a verdade
é que é uma história que se compensa a si mesma na emoção da
relação do pai com o filho ou na ambiguidade de sentimentos
entre a personagem de Tom Hanks e a de Paul Newman.
E como qualquer bom filme que se preze, não falta a personagem
fascinante pela sua invulgar composição e as prestações interpretativas
de grande nível. Em consideração a isso mesmo, que dizer de
um excêntrico e pérfido fotógrafo de cadáveres que trabalha
ainda como assassino a soldo? E da espantosa, embora algo fugaz,
presença do cada vez mais actor Jude Law a corporizar esse ser
desprezível? Fale-se também da extraordinária conjugação da
actual condição física de um homem aos 77 anos, homem esse que
é um colosso do cinema, com o papel que lhe foi dado a representar.
Esse homem, Paul Newman, merece que esta sua prestação em «Road
to Perdition» possa ficar imortalizada por algo mais que o próprio
filme. Quanto a «Road to Perdition», o filme, é sem dúvida alguma
um relevante objecto fílmico. E é claro que não se trata de
um filme inovador ou sequer surpreendente. Mas como poderia
sê-lo se este é um filme que se respeita a si mesmo respeitando
o passado do próprio cinema e do género que evoca?
Classificação: *****
Crítica de Joaquim
Lucas |