
Com Adrien Brody e Thomas Kretschmann, realização de Roman Polanski
(2002)
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MURMÚRIOS DE UM PIANO ABAFADOS PELO TRAGÉDIA
NAZI
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, «O Pianista», logo depois
de «A Nona Porta» (1999) marca igualmente o regresso às nossas
salas de Roman Polanski, o realizador do incontornável «Repulsa»
(1965). Neste filme, Polanski filma como se de um modo altruísta
o calvário de um homem, de um brilhante pianista polaco em Varsóvia
durante o holocausto nazi.
O cineasta, também ele polaco embora circunstancialmente nascido
em Paris, consegue uma realização sóbria em que o único objectivo
perseguido é o de canalizar toda a atenção do espectador para
o drama individual de alguém que representará, em termos gerais
da temática exercitada, a tragédia daqueles que foram vítimas
do terror nazi.
Particularmente emotivo e perturbador pelo fatalismo que evoca,
dir-se-ia que este filme é um apelo comovente à memória de cada
um de nós enquanto seres racionais, pensantes, através da amostragem
dos efeitos da própria irracionalidade humana. Wladyslaw Szpilman,
o homem em cujas memórias o filme se edifica, foi, pelo menos
para esta obra de Polanski, muito mais que um brilhante pianista
um heróico sobrevivente do holocausto. E heróico não porque
Szpilman tenha desenvolvidos actos valorosos como aqueles que
normalmente se atribuem aos designados como tal. Não.
Heróico por motivo das sevícias a que esteve sujeito e das quais
sobreviveu, do aterrador pesadelo vivido e de qual acordaria
apenas com a derrota alemã. Após assistir à amarga deportação
de toda a sua família para os campos de concentração onde os
nazis semeavam horrores e os judeus colhiam a morte, o músico
sobrevive no ghetto de Varsóvia logrando posteriormente a fuga
para o outro lado da cidade. Escondido por antigos amigos, sofre
doenças e passa fome e frio, mas isso tudo é nada comparado
com as terríveis humilhações anteriormente passadas no ghetto
e ao testemunho dos assassínios mais atrozes cometidos com uma
medonha impassibilidade.
Quase no final da guerra, Szpilman, por entre escombros e ruínas
é ajudado por um oficial alemão. Conseguira-a, essa empatia
nascida com o inimigo, a força da sua música então tocada por
umas mãos trementes num corpo extremamente débil. Apesar do
carácter clássico do cinema em que «O Pianista» se construiu,
em momento algum do filme o convencionalismo conceptual se perdeu
em exercícios narrativos estereotipados. Por outro lado, a mise
en scène adoptada foi-o invariavelmente na pretensão realista
dos factos, isto é, fiel ao conceito de verdade histórica. Embora
se aceite pacificamente que tenha acontecido, a espaços, a introdução
de alguns elementos dramáticos tendentes a consolidar a espessura
narrativa da obra fílmica.
Destaque-se igualmente a muito boa prestação interpretativa
de Adrien Brody no papel de Wladyslaw Szpilman, atribuindo à
personagem uma genuína debilidade psicológica e física, esta
última iludida pela muito adequada postura gestual e corporal
do actor. Sendo, no seu geral, um filme tocante e inquietante,
devem no entanto realçar-se os primeiros quarenta e cinco minutos
deste: emocional e psicologicamente arrasadores em consequência
do sofrimento provocado a seres humanos por, apesar de tudo
fazerem para negarem a essência que ainda assim se lhes reconhece,
outros seres humanos.
E Polanski filmou este pormenor com competência e acuidade.
Até porque não se tratava aqui de simplesmente filmar os horrores
da guerra. Tratava-se, isso sim, de filmar o ódio, o desprezo,
a intolerância, a arbitrariedade. E o filme conseguiu objectivamente
materializar-se nos intuitos do seu realizador. Lembre-se que
Polanski, tal como Szpilman o foi, é um sobrevivente de várias
tragédias.
Classificação: ****
Crítica de Joaquim
Lucas |