
Com Nia Vardalos, John Corbett, Lainie Kazan, Michael Constantine,
Gia Carides, realização de Joel Zwick (2002)
TRAILER
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A FAMÍLIA PORTOKALOS
Que faz uma família grega emigrada na América do Norte, e materialmente
bem sucedida, para além de cultivar o excesso em detrimento
da simplicidade, a ostentação berrante em lugar do comedimento?
Diga-se, respondendo à questão, que acrescenta a estes factores
uma estranha característica de dignidade própria de uma comunidade
ao não deixar nunca de preservar os seus costumes e tradições
ou, por outras palavras, as suas recônditas origens gregas.
«Viram-se Gregos Para Casar», realizado por Joel Zwick, é uma
comédia romântica que adapta uma peça de teatro de sucesso escrita
e interpretada por Nia Vardalos. E é Nia Vardalos que assina
também o argumento para o filme e corporiza Toula Portokalos,
a personagem principal do enredo. Um enredo que parte do facto
aparentemente banal de Toula ser já uma mulher de 30 anos, ainda
solteira, que vive com um irmão e os pais na casa destes últimos.
Esta circunstância não seria de todo estranha, como se disse
atrás, se esquecêssemos que as raparigas gregas decentes têm
três importantes desígnios a cumprir: casar com rapazes gregos,
procriar filhos gregos e alimentar toda a família até que chegue
a hora do eterno descanso. A primeira constatação a fazer é
que este é mais um daqueles surpreendentes produtos fílmicos
vindos do cinema independente americano. É igualmente de assinalar
a frequência com que o teatro está ligado ao sucesso de filmes
com o mesmo historial artístico e de produção de «Viram-se Gregos
Para Casar».
Efectivamente, como que provando a acutilância do provérbio
que nos diz que “a necessidade aguça o engenho”, nota-se uma
preocupação pela riqueza do substracto de filmes do tipo em
detrimento da espectacularidade das imagens obtidas através
do uso e abuso de efeitos especiais tão populares em filmes
de grande orçamento. Neste filme, a comunidade imigrante grega
é o alvo da análise bem disposta e despretensiosa da comédia
que sendo ligeira não deixa de ser rica nos costumes enunciados
e contrastes culturais que estes proporcionam relativamente
à sociedade em que se acolheu.
É sobretudo muito interessante a evolução da narrativa através
do confronto de interesses entre uma jovem mulher e aquilo que
os seus progenitores, nomeadamente o pai, desejam para si. Se
no início existe a pressão para que Toula arranje um noivo e
possa com isso corresponder ao que dela se espera sem que esta
se sinta especialmente predisposta a tal, dá-se posteriormente
o oposto. Toula conhece Ian (John Corbett) mas este está longe
de corresponder aos pressupostos que a família lhe impunha para
noivo: é um “xeno” (estrangeiro do ponto de vista grego) e,
para cúmulo, é vegetariano.
É o desespero para o seu pai (Michael Constantine), um velho
grego que busca em cada palavra a sua raiz etimológica provando
por A+B ser esta uma palavra de origem grega. Para além disso,
o orgulhoso grego possui um remédio muito peculiar para lutar
contra os pruridos da pele que usa e aconselha sem moderação.
Sendo uma comédia cujas peripécias da acção vão comandando a
construção narrativa, realce-se o calor com que a câmara de
Joel Zwick vai olhando para as personagens pictóricas e como
a específica realidade social destes imigrantes, obrigatoriamente
comandados por uma lógica de necessidade vincadamente materialista
que os terá inclusivamente instigado a aventurarem-se por outros
mundos, é adequadamente retratada.
Destaque-se que mesmo em alguns aspectos de maior rudeza de
trato, a opção conceptual dos autores do filme é a de seguir
uma postura de compreensão. Nesse particular, evidenciam-se
até pormenores como o que explica que se muitas vezes a delicadeza
é um mero artifício para esconder contrariedades, por via dessa
rude genuinidade tal não é suposto acontecer com a enorme família
grega de Toula. Em suma, «My Big Fat Greek Wedding, no seu título
original,é uma comédia de costumes, simples e de objectivos
antecipadamente modestos, mas que resulta na perfeição chegando
a ser hilariante em alguns momentos da sua acção.
Servida por um elenco não muito mediático, julgo que até nesse
aspecto o filme terá beneficiado no sentido de credibilização
de acontecimentos culturais. Acontecimentos esses afinal não
tão distantes da nossa própria cultura popular como país de
emigrantes que também fomos. Somos.
Classificação:***
Crítica de Joaquim
Lucas |