
Com Leonardo DiCaprio, Cameron Diaz, Roger Ashton-Griffiths,
Daniel Day-Lewis e Liam Neeson, realização de Martin Scorsese
(2002)
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Crítica de Tiago Pimentel |
A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE SCORSESE
Martin Scorsese regressa a um local de onde jamais pretendeu
ausentar-se: a sua eterna Nova Iorque. Desta vez, e citando
apenas obra feita que não pode omitir-se, o mestre que nos doou
filmes como «Táxi Driver» (1976) ou «Touro Enraivecido« (1980),
mergulhou nas profundezas históricas da grande metrópole e,
porque é disso mesmo que se trata, nas raízes de toda a sociedade
norte-americana. Curiosamente, a Nova Iorque de meados do séc.
XIX aqui representada, seria recriada com rigor histórico num
espaço físico bem longe da ilha que a alberga e onde outrora
se ergueu o bairro de Five Points, local privilegiado de todas
as convulsões deste épico dramático: nos famosos estúdios da
Cinecittà, em Roma.
E, ironicamente, pese embora a grandiosidade adquirida por um
projecto que por vicissitudes várias durou cerca de trinta anos
até que conseguisse concretizar-se, o nome de alguém que também
por terras italianas se dedicava à aprendizagem do ofício de
sapateiro se sobrepõe ao de Martin Scorsese: o nome de um actor
infinitamente maior que qualquer uma das personagens que já
corporizou: Daniel Day-Lewis. E, meus caros, há que dizê-lo,
o homem é um verdadeiro tratado na arte de representar. Filho
da mãe!
Naquela altura, a cidade contava cerca de oitocentos mil habitantes
e ao seu porto chegavam, dia após dia, numerosos grupos de imigrantes
irlandeses em busca daquilo que hoje designamos como o sonho
americano. Mas aquela era uma época dura e esperava-os uma vida
miserável agravada por dolorosas convulsões sociais. A sua vivência
decorria assim trespassada por ódios e rivalidades que invariavelmente
levavam ao derramamento de sangue. A população irlandesa era
perseguida pelos autodenominados Nativos, que para além de se
organizarem em temível gang fundaram um partido político. Na
figura dos imigrantes, e novos habitantes, eles viam uma perigosa
ameaça para o futuro da cidade e para o seu próprio bem-estar.
Para lá de todos estes conflitos, como se já não bastassem as
sangrentas querelas a que conduziam, o país afundava-se na guerra
civil e o povo revoltava-se contra o recrutamento obrigatório.
Envolvidos nas diversas questões relatadas encontram-se o sanguinário
líder dos Nativos, justamente conhecido por Bill ‘The Butcher’
(Daniel Day-Lewis), e um jovem, Amsterdam Vallon (Leonardo DiCaprio),
à procura de vingar a morte do pai. Este, morto às mãos do carniceiro
Bill, era o Padre Vallon (Liam Neeson) um antigo líder do gang
defensor da causa irlandesa. Como se pode observar, dada a temática
vasta e algo complexa, a Scorsese apenas restava fazer uso de
toda a sua perícia narrativa para a explanação dramática dos
diversos elementos da trama. E esta é, quanto a mim, a maior
brecha do filme.
Isto porque Scorsese se perde em questões de pormenor que atribuem
à película inegável valor técnico e artístico mas lhe retiram
alguma fluidez e solidez dramática. Desse modo, nem o reconhecido
virtuosismo cinematográfico do realizador salva a fita de se
tornar entediante em alguns dos seus cerca de cento e sessenta
minutos de duração. No entanto, em apreciação contrária, diga-se
que o olhar sobre a história de edificação de uma cidade – e
de uma nação – que nos é oferecido pela câmara do velho Marty,
recusa qualquer tipo de indesejável e mui patriótica complacência.
É, reconheça-se, um olhar realista o que nos é apresentado.
Olhar esse onde a delinquência, a corrupção, a violência e demais
exemplos de sórdida conduta dos homens são meros elementos exemplificativos
daquilo por que é, em grande parte, composto o enredo do filme.
Paralelamente, atravessa o filme uma história de amor e vingança.
Nela, as personagens cruzam rumos, confundem sentimentos e contrapõem
objectivos. E também aqui, em matéria de credibilidade romanesca,
é relevante a recriação de uma cidade e de uma época. Pelo respeito
pelos costumes, de que é exemplo a arte da guerra então seguida
e que o filme expõe. Também pelo guarda-roupa e pela caracterização,
e pela ambiência doentia e viciosa de tabernas e bordeis.
Mas, como já atrás se referiu, é a Daniel Day-Lewis e à sua
espantosa interpretação, cuja variedade de registos vai desde
a mais terrível das crueldades ao mais nobre dos gestos – tudo
isto regado com sedutora e pictórica excentricidade, que pertencem
os momentos mais sublimes do filme. A Leonardo DiCaprio resta
a consolação de ter conseguido responder com a inatacável dignidade
da sua prestação a opositor de semelhante envergadura. Conclusão
final: embora menor que aquilo que justificaria a sua própria
ambição, há que concluir que «Gangs de Nova Iorque» é um grande
filme.
Possui uma postura épica que lhe confere uma dignidade que não
é afectada pelas imperfeições de que padece. Até porque esta
é uma obra que pretendeu respeitar uma certa pureza artesanal
do cinema, enjeitando, sempre que possível, o artificialismo
dos efeitos especiais. E isso deve ser considerado e valorizado.
Este é ainda um filme que tem Daniel Day-Lewis. Ele, um actor,
um homem, que parece desaparecer na pele das suas personagens.
Ganha, com isso, o cinema. E ganhamos todos nós os que assistirmos
aos filmes.
Classificação:****
Crítica de Joaquim
Lucas |