
Com Leonardo DiCaprio, Cameron Diaz, Roger Ashton-Griffiths,
Daniel Day-Lewis e Liam Neeson, realização de Martin Scorsese
(2002)
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Outros Comentários:
Crítica de Joaquim Lucas
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Quando Martin Scorsese acordou fazer este filme
para o estúdio dos manos Weinstein, consta que terá tido lugar
uma conversa séria entre Harvey Weinstein e Scorsese sobre o
seu controlo criativo face a uma obra que iria custar cerca
de 100 milhões de dólares. Ficou acordado que Marty teria sempre
a última palavra sobre o projecto mas que o seu bom senso deveria
ditar também os interesses da Miramax. Assim, Marty fez um primeiro
"cut" com cerca de 3h30min que, claramente, parecia insustentável
para suportar os custos do filme. Depois de meses de remontagem
e retalho, o "final cut" foi finalmente lançado, com menos 40
minutos.
A estrutura narrativa e a arquitectura cinematográfica deste
gigante são tão bem conseguidas que conseguem ocultar na perfeição
os "gaps" narrativos que se vão gerando - sobretudo, quando
se salta da história de Nova Iorque para a do triângulo de personagens.
O próprio argumento (assinado por Jay Cocks, Steven Zaillian
e Kenneth Lonergan) parece-me tão frágil que só o magnífico
"bluff" do realizador de «Taxi Driver» consegue tornar de alguma
forma imperceptíveis essas vulnerabilidades. Creio, também,
que Marty começa a ficar desnecessariamente obcecado pelo perfeccionismo.
Ainda há pouco tempo, a sua habitual colaboradora na montagem
dos seus filmes - Thelma Schoonmaker - confessou que o grande
desejo de Marty, neste momento, era fazer um filme que estivesse
à altura dos seus mestres (Powell, Welles, etc); algo que, segundo
o realizador, ainda não tinha conseguido. Olhando para obras
como «Taxi Driver», «Casino», «A Última Tentação de Cristo»
e «Raging Bull» eu diria que o cineasta já deu provas mais que
suficientes que merece o seu lugar de destaque nos anais do
cinema. O problema com «Gangs of New York» e respectivas fraquezas
está precisamente localizado na ausência de desequilíbrios interiores
e na inexistência de algum caos que abane aquele equilíbrio
perfeito.
Dizer isto pode parecer algo absurdo, ainda por cima de um filme
onde a violência e a indomável selvajaria existem à flor da
película. Mas o certo é que mesmo esse caos e violência existem
de uma forma paradoxalmente harmoniosa, sem desequilíbrios,
onde tudo parece minuciosamente premeditado. O filme acaba por
resultar de uma forma assombrosa no seu todo, mas aquela construção
meticulosa começa a desmoronar-se e a evidenciar as suas costuras
se começarmos a escavacar aquele verniz arquitectónico muito
próximo da perfeição e perguntarmos: então, afinal que história
é esta? Em primeiro lugar, é a história de um rapaz que perdeu
o seu pai num conflito de gangues e procura, alguns anos depois,
a vingança.
Leonardo DiCaprio interpreta esse rapaz sedento de sangue (se
o projecto deste filme em 1978 fosse em frente, Marty já tinha
mostrado interesse em colocar DeNiro nesse papel), enquanto
Daniel-Day Lewis encarna o vilão Bill "the Butcher" numa das
composições dramáticas mais viscerais da sua carreira. Para
completar o triângulo e apimentar a dimensão romântica desta
história está Cameron Diaz, no papel de uma donzela esquiva
e bandida. Infelizmente, a sua presença no filme parece sempre
deslocada de tudo (nunca saberemos se os 40 minutos que faltam
a colocavam em sintonia com o filme, uma vez que Scorsese parece
ter renunciado definitivamente o primeiro "cut").
Em segundo lugar, existe a história de Nova Iorque. Se na primeira
história (a do triângulo de personagens) parece existir uma
inexplicável distância emocional de Marty face às suas personagens
(como a distância de um visionário cujos ideais de perfeccionismo
toldaram-lhe a sua inquietação emocional e a capacidade de mergulhar
nas vertigens mais íntimas de cada personagem), já quando conta
a história da sua mítica Nova Iorque, essa entrega emocional
parece mais evidente e, porventura, a mais interessante. No
entanto, a dimensão primária do filme (aquela de onde todas
as outras deveriam nascer), lamento imenso, mas desilude-me.
É quase aflitivo ver um cineasta tão impulsivo e passional como
Scorsese, castrado pela sua própria obsessão perfeccionista.
Onde estão os paradoxos vertiginosos de Travis Bickle em «Taxi
Driver»? E a irredutibilidade do amor que vive nas entranhas
de «Casino» (uma segundo para comparar Sharon Stone a Cameron
Diaz chega para reflectirmos as diferenças...)? Seja como for,
«Gangs of New York» é, de facto, um filme imponente, onde as
vertigens das suas personagens acabam por ser transcendidas
pelo espectáculo visceral e selvagem que explode nas ruas de
Nova Iorque (à imagem dos dias que correm).
Classificação: ****
Crítica de Tiago
Pimentel |