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Comentários : Far From Heaven (Longe do Paraíso)


Com Julianne Moore, Dennis Quaid e Dennis Haysbert, realização de Todd Haynes (2002)

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Crítica de Tiago Pimentel



UM FILME LONGE DO SEU TEMPO

Alguém se recorda de um período da nossa história televisiva em que a grelha de cinema dos nossos dois únicos canais era preenchida por clássicos profundamente americanos e maioritariamente produzidos nas décadas de 50 e 60? Lembram-se também daqueles pungentes melodramas impregnados de paixões delirantes que acabavam invariavelmente contrariadas por um sem número de imprevistos romanescos? Enquanto muitos de nós, ainda putos imberbes, sentados no sofá da sala dávamos os primeiros passos rumo a uma paixão pelo cinema que o passar dos anos acentuaria, as nossas mães fungavam e limpavam as lágrimas que o sofrimento por amor da heroína da fita lhes provocava e os nossos pais abanavam firmemente a cabeça em sinal de aprovação pela postura máscula e inflexível do galã que tanta dor causava nas mulheres que consigo se cruzavam.

Pois «Longe do Paraíso», de Todd Haynes («Velvet Goldmine», 1998), é uma espécie de quase colagem dessas fitas de outros tempos idealizada num tempo em que apenas os filmes de então podem fazer sentido. Porque estes eram edificados do modo referido como reflexo de uma época, a sua, ganhando com isso um importante estatuto de genuinidade. E também porque pelo acumular das suas várias características adicionadas à qualidade cinematográfica com que foram erigidos, se tornaram clássicos de sempre do cinema.

Seguindo fielmente as regras, Haynes, cujo argumento do filme também lhe pertence, situa a trama num próspero bairro residencial duma cidade do Connecticut. Estamos em finais da década de 50 e os Whitaker são uma das famílias socialmente mais conceituadas da cidade. Enquanto Frank (Dennis Quaid) é um importante quadro superior da Magnatech, Cathy (Julianne Moore) é uma mãe e dona de casa exemplar que reparte os seus dias entre a gestão doméstica e os compromissos de índole social. No entanto, querendo fazer uma surpresa ao marido num dos seus habituais serões de trabalho na empresa, Cathy acaba por inadvertidamente descobrir a infelicidade e o impensável: que Frank tem um caso amoroso com outro homem.

A partir daqui, a vida do casal entra numa incontrolável espiral de tragédia e nada voltará a ser como antes apesar dele buscar ajuda médica que o possa curar da sua doença, ou seja, debelar as suas tendências homossexuais. Enquanto isso, Cathy torna-se amiga de um jardineiro negro (Dennis Haysberth), o que é de todo impensável para uma senhora na sua posição social.

Assuma-se desde logo um corte com o passado que Haynes ironicamente protagoniza para o seu filme relativamente aos melodramas clássicos que pretendeu recriar. Sendo que a maior referência que se detecta em «Longe do Paraíso» tem que ver com Douglas Sirk e que alguns dos seus efervescentes clássicos foram protagonizados por Rock Hudson, o que se constata é que o que então era um galã heróico e muito cioso da sua masculinidade ganha agora uma nova e inesperada dimensão através da homossexualidade assumida da principal personagem masculina no filme de Haynes.

Se nos lembrarmos que Hudson assumiu em final de vida a sua própria homossexualidade, talvez percebamos onde Haynes queria chegar com este seu jogo de aparências. Mas também aí o filme adquire um inaceitável desequilíbrio por via das temáticas que debate. Porque se em termos de questões ligadas à sexualidade o arrojo experimentado pelo cineasta é elevado, polémico e até descabido para a época, já que é o próprio filme que começa por encarar a homossexualidade vista então como uma doença, pelo contrário em termos da questão do racismo o filme não só nada acrescenta à controvérsia como se mostra estranhamente contido nas suas opções limitando-se a expor o básico, o que é do senso comum.

No entanto, isso nem sequer é o mais importante já que estas são até questões ligadas à subliminar essência da narrativa. O que mais incomoda é perceber que num filme onde Julliane Moore – especialmente ela, Dennis Quaid e Dennis Haysbert vão muito bem, onde a recriação da época é fabulosa, o guarda-roupa é fantástico e a fotografia admirável, o resultado final se revele tão desbotado, tão sem brilho. Porque a reverência de Todd Haynes a um género foi tão exagerada e o seu apego à união entre estilo e conteúdo tão rigoroso que nada no filme chega a comover ou verdadeiramente incomodar o espectador.

E a exaltação de paixões e doloroso fatalismo das personagens, que perfuravam a sensibilidade do espectador, eram características indissociáveis dos filmes que Haynes quis recuperar. Para além disso, enquanto assistimos à sua realização branda e muito certinha, uma questão se vai agigantando na nossa mente: a de procurar saber o que poderá ter motivado fazer um filme com as características genéricas, temporais e temáticas de «Longe do Paraíso» em pleno séc. XXI.

Classificação: **

Crítica de Joaquim Lucas
 
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