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Comentários : Far From Heaven (Longe do Paraíso)


Com Julianne Moore, Dennis Quaid e Dennis Haysbert, realização de Todd Haynes (2002)

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Crítica de Joaquim Lucas



Perto do Paraíso

É raro assistirmos a tão poderosa demonstração do dispositivo melodramático clássico, com ressonâncias claras do cinema “sirkiano”.
Provavelmente, este “Far From Heaven” (em português, “Longe do Paraíso”), do realizador Todd Haynes (“Velvet Goldmine”), é melhor que a maioria do cinema que Douglas Sirk construiu (à excepção de “Written on the Wind”). Estamos, quer-me parecer, perante um notável cineasta que redescobre as coordenadas do melhor cinema clássico norteamericano, sempre atento à singularidade do próprio tempo em que vive.

E muito se tem falado, a propósito deste “Far From Heaven”, do revivalismo temático e formal de um certo cinema cuja identidade se reporta às barreiras sociais típicas dos anos 50. “All That Heaven Allows” (de Sirk, 1955) parece ser a grande influência deste filme de Todd Haynes (a própria personagem de Julianne Moore parece decalcada da de Jane Wyman) para reconstruir uma história de amor aprisionada nos seus próprios receios sociais. Cathy Whitaker (Julianne Moore) é uma dona de casa que preserva a sua aparência debaixo de pinturas mentirosas, com a sua condição conjugal muito debilitada devido às descobertas sexuais do seu marido.

Numa altura em que as convenções sociais relativamente à homossexualidade eram absolutamente intransigentes, o marido Frank (fenomenal Dennis Quaid) encontra-se perante o desespero e a repulsa da sua própria “doença”. A orientação sexual desviante de Frank é tratada como uma patologia, de uma forma terapêutica, num psicólogo conceituado, de forma a afastar radicalmente esse vírus da saúde doméstica do casal.

E começa a ser impossível não reparar na forte componente homossexual que parece assombrar os filmes de Todd Haynes – alguém se lembra de “Velvet Goldmine”? No limite, Todd Haynes é também um cineasta que explora as variações sexuais do nosso próprio comportamento humano, como algo que vive condicionado constantemente pelas interacções sociais. E o peso insustentável desta malograda insuficiência conjugal começa, aos poucos, a destruir a imagem de ambos. Cathy começa a borrar a pintura e os assombramentos da sua vida polvilham o mundo exterior.

Entretanto, uma relação muito curiosa germina das ruínas deste casal: Cathy começa a falar, com uma frequência cada vez maior e um grau de honestidade acima do esperado, com o seu jardineiro negro. O jardineiro Raymond Deagan (Dennis Haysbert) revela-se uma personagem extraordinariamente atenta aos problemas da sua patroa. Um novo problema se coloca: se a homossexualidade de Frank era foco determinante da instabilidade conjugal do casal, esta nova relação que coloca duas personagens (Cathy e Raymond) numa situação de simples diálogo, rapidamente desemboca num profundo desafio das convenções racistas da época.

À semelhança dos filmes de Sirk, também este é (embora de uma forma mais explícita) construído em volta de coordenadas drasticamente desenhadas pelas barreiras de comunicação sócio-cultural dos anos 50. E não deixa de ser curioso observar como a actualidade consegue olhar para o seu próprio passado, com as armas melodramáticas que, provavelmente, não existiam na altura. A verdade é que a reconstrução fotográfica e cénica deste filme possibilitam o regresso do modelo melodramático, enquanto que a coragem inabalável de Haynes consegue que este filme seja mais do que uma simples reconstituição ou revivalismo nostálgico de um género considerado moribundo (ou, apenas, distante).

É tudo segredado ao espectador numa surdina de sentimentos e emoções, como se vivêssemos barreiras de comunicação cinematográfica e tudo fosse dito pelas vibrações singulares e interiores de cada personagem.

Sem notarmos, algo mudou. Porque o olhar duro e impiedoso da actualidade sobre o seu passado é de tal forma lancinante que impede a materialização concreta daquele universo num determinado contexto espácio-temporal. Sim, é verdade que estamos em 1957 e que se vivem tempos de impiedade e ignorância cultural. Mas a paixão deste filme parece permanecer intemporal com os verdadeiros receios e feridas insustentáveis a nascerem não do assombramento de uma época como personagem colectiva de uma realidade distante, mas sim da singularidade implosiva de cada personagem. A tintura é de época, mas os conflitos, esses são intemporais e da pertença exclusiva de cada corpo deste filme, assombrados pela sua própria natureza.

Classificação: ****

Crítica de Tiago Pimentel
 
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