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Comentários : Le Fabuleux Destin D'Amelie Poulain (O Fabuloso Destino de Amélie)


Com Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz e Rufus Sewell, realização de Jean-Pierre Jeunet (2001).


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Outros Comentários:

Crítica de Tiago Pimentel

Crítica de Pedro Serra
AMÉLIE DOS OLHOS DOCES

Voltaire disse um dia que a delicadeza é para o espírito aquilo que a graça é para o rosto. E Voltaire não teve a felicidade de conhecer Amélie, Amélie Poulain. Amélie, esta, tem um sorriso garoto, meio malandro, como se a cada momento se preparasse para pregar uma partida a alguém. E tem uns olhos grandes, enormes, do tamanho das fantasias que lhe perpassam constantemente pelo cérebro.

No princípio: Amélie teve uma infância infeliz. Vítima de uma enfermidade que afinal não tinha mas que lhe fora diagnosticada, a pobre vive uma meninice arredada do convívio com as outras crianças, perde a mãe e perde o pai. Uma porque morreu e o outro porque não quer a vida. Jean-Pierre Jeunet, o realizador, começa o filme muito ao jeito de «Magnólia», assentando a génese da narrativa num processo resultante do efeito dos acasos que se conjugam formando estranhas coincidências.

Depois: uma infância infeliz não tem necessariamente que originar um adulto amargurado. E Jeunet inicia neste pressuposto uma áurea de teórico positivismo sobre a vida e seus cambiantes que não mais abandonará até final. E também: falou-se de Voltaire, chame-se agora a este comentário Wilde; este afirmou, grosso modo, que o egoísta não é o que vive como quer mas o que exige que os outros vivam como ele quer. Certo. Mas afirmou depois que o altruísta é o que deixa os outros viverem sem interferir nas suas vidas. Nada mais errado, prova-nos Amélie Poulain.

«Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain» (que bem que soa este título no seu original) é um filme longe do tradicional rumo do cinema francês. E também do cinema europeu o que eventualmente terá acarretado sobre si o ostracismo do Festival de Cannes. Por vaidade e presunção? Simples incompetência analítica? Talvez não uma sequer a outra, uma mera disfunção, quem sabe?, um erro crasso, acredito, uma grande injustiça, não duvido. Longe então do habitual realismo tão obscuro quanto pessimista, este novo filme do cinema francês evoca um certo imaginário infantil aqui transportado para a nostalgia de que são formadas as memórias dos adultos.

Um filme onde se cruzam histórias de uns, os da ficção, que se fundem nas de outros, os da realidade . Histórias filmadas muito a propósito no típico bairro parisiense de Montmartre. Um filme que é um tributo à cor, à alegria, imensamente rico nas variadas personagens que o percorrem. Personagens de ficção copiadas da realidade que vivem as suas vidas de forma quase resignada, incapazes da ambição da verdadeira felicidade. É Amélie quem se intromete nessas vidas e lhes procura, por vezes com tão pouco, dar um novo sentido.

E, embrenhada em tarefas altruístas, nem se apercebe que ela mesma receia dar esse passo na sua vida, que ela mesmo tem medo de ser feliz. E é assim que decorre uma das mais interessante comédias do ano, num clima impregnado de fantasia e brilho. Um filme tecnicamente excelente, recheado de efeitos especiais que permitem um estado de espírito estranho pela suave tranquilidade que a sua visão transmite. Diria ainda que é um filme baseado em bons princípios, em pequenas coisas de que às vezes julgamos poder prescindir no dia-a-dia mas que poderão revelar-se essenciais ao equilíbrio emocional de cada um. Destaque para a actriz que protagoniza Amélie, pois o seu rosto espelha as boas intenções do filme e a sua representação é excelente.

Destaque seguinte para a banda sonora que nunca esquece que é a Paris dos parisienses e não a Paris das capas de revista onde se desenvolve a narrativa. Destaque final, num filme intenso em personagens caricaturais, para aquele indivíduo meio esquizofrénico, meio paranóico, que “vive” numa das mesas do café onde Amélie trabalha. Um tipo que se entretém a destruir as suas relações amorosas registando num pequeno gravador suspeitas em forma de delírios. Hilariante. Enfim, foi deste modo que vi «O Fabuloso Destino de Amélie» e o recomendo sem reservas. Às vezes sabe bem ver um filme assim.

(**** em *****)

Crítica de Joaquim Lucas
 
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