
Com Hugh Grant, Toni Collette, Rachel Weisz, Nicholas Hoult,
realização de Paul e Chris Weitz (2002)
TRAILER
Outros Comentários:
Crítica de Joaquim
Lucas

32% *****
37% ****
26% ***
00% **
05% * |
TUDO SOBRE O MEU PAI
Uma pequena pérola! “About a Boy” (em português “Era Uma Vez
Um Rapaz”) é uma lufada de ar fresco no tempestuoso Verão cinematográfico
que nem um título digno de referência soprara... até agora.
Assim, em pleno Agosto, chega um objecto notável, um exercício
de regressão às tradições mais nobres do melodrama clássico
americano retrabalhado pela nova cultura pop e pelo espírito
cínico que, cada vez mais, se pressente na sociedade actual
– “Ghost World” e “Os Tenenbaums” são os exemplos mais evidentes
dessa denúncia. Hugh Grant é o solteirão mais vulgar que se
podia arranjar a quem o filme baptiza, muito simplesmente, de
Will.
Will é um preguiçoso mulherengo que julga viver numa ilha onde
não necessita de mais ninguém, acreditando que precisa das mulheres
para manter uma relação de rotina e de satisfação sexual sem,
no entanto, permitir que a intimidade evolua por forma a violar
a privacidade do seu ilhéu de conforto e solidão. Ao mesmo tempo,
ouvimos a história de um rapaz chamado Marcus (magnífico Nicholas
Hoult) que é o alvo preferencial de trituração pelos seus colegas
assanhados e púberes na escola e vive sozinho com a sua mãe
divorciada – a espantosa Tony Collette.
Mais do que uma suspeita, torna-se já uma evidência que Tony
Collette é uma das melhores actrizes da actualidade, senhora
do mais complexo registo em “O Casamento de Muriel”, de PJ Hogan,
assim como da mais cortante composição secundária em “O Sexto
Sentido”, de M. Night Shyamalan. O filme começa com o mais delicioso
politicamente incorrecto com Grant à cabeça e, lentamente, abre-nos
o coração com o seu humanismo genuíno e desprovido das habituais
pregações em filmes do género. “About a Boy” não é mais do que
a história comovente de um menino à procura do seu espaço e
de um adulto a sufocar dentro do seu próprio e autoconstruído
terreno de sedentarismo.
Marcus é um menino fora do vulgar, penteia o cabelo de uma forma
“nerd”, veste-se com roupas excessivamente “fancy” e patina
pelos corredores da escola a cantarolar inconscientemente “Killing
me Softly”. Ele é, claro, o alvo de chacota geral por parte
dos colegas. A sua mãe Fiona (Collette) vive em estado de depressão
e o seu equilíbrio instável preocupa seriamente o seu filho
Marcus que teoriza um pouco de psicologia conjugal. “Eu não
chego, é necessário mais alguém de apoio” pensa Marcus. O filme
tem, sem dúvida, uma perspectiva secretamente infantil já que
tudo gira em volta de um rapaz que procura um pai para si e
um marido para a mãe – é, afinal, a história da descoberta da
nossa própria identidade (connosco e com os outros).
Assim, inicia uma odisseia para convencer Will a namorar com
a sua mãe, tarefa que não será, de todo, fácil uma vez que Will,
além de não sentir atracção por Fiona, é o pior exemplo paterno
que Marcus poderia pedir. Will é o melhor exemplo de um irmão
mais velho, um amigo mais pontual, é aquele que compra os ténis
e que oferece cds de música mas não consegue lidar com assuntos
mais sérios e íntimos receando a integridade e partilha da sua
própria privacidade. Will tem medo de abrir a porta para alguém
de fora entrar no seu mundo, escondendo-se assim dentro de um
muro de despreocupação e boa-vida (para isto muito ajudou a
cabotinice de Hugh Grant).
Dinamizado por uma banda sonora notável de Badly Drawn Boy,
“About a Boy” é um melodrama familiar que os sinais dos tempos
modernos fossilizaram e convenientemente (re)denominaram de
comédia romântica. Mas o filme dos manos Weitz é um pequeno
prodígio ao evitar todos os lugares-comuns que, ao longo dos
anos, menorizaram o valor de praticamente todas as comédias
românticas - excepção feita, nos últimos anos, ao brilhante
“Melhor É Impossível” e ao espantoso “Quase Famosos”. Geralmente,
o momento mais perigoso e híbrido dos melodramas e comédias
românticas é, precisamente, o final, altura em que o filme reconverte-se
e desliga-se de qualquer ambição de subtileza recorrendo à pregação
fácil de uma mensagem moralista e politicamente correctíssima.
Mas, entenda-se uma coisa, nunca seria capaz de me opôr a um
filme que transmitisse algo de bom ou eticamente saudável. As
reservas são sempre colocadas caso essa mensagem seja pregada
à custa da subtileza narrativa e da verosimilhança humana das
personagens, traídas por um argumento pastelão reconvertendo
todos os lugares e relações a um sabor de inexorável falsidade.
Mas até nisto “About a Boy” é um prodígio de subtileza formal,
escapando-se a todas essas facilidades e simplismos. É, também,
a história da descoberta de uma relação. A de pai/filho? Talvez,
mas não necessariamente. Uma última, mas perturbante nota: os
realizadores deste filme são, também, os responsáveis por “American
Pie”.
Não sei se será boa publicidade colar esta referência, mas certamente
irá gerar uma confusão de públicos no mínimo curiosa. Seja como
for, “About a Boy” é, sem dúvida, a primeira grande estreia
deste segundo semestre cinéfilo e uma surpreendente e originalíssima
abordagem das vicissitudes familiares e da necessidade urgente
de pertencermos a uma família (tradicional ou não).
«About a Boy» **** (17,5 em 20)
Crítica de Tiago
Pimentel |