
Com Jack Nicholson, Dermot Mulroney, Kathy Bates e Hope Davies,
realização de Alexander Payne (2002)
TRAILER
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E TUDO A VIDA LEVOU
Algures em Omaha, no Nebraska, um homem assiste desencantado
aos discursos inflamados de colegas e amigos. Warren Schmidt
(Jack Nicholson) tem 66 anos, acaba de se reformar da companhia
de seguros onde trabalhou durante dois terços da sua vida e
as vozes soam-lhe aos ouvidos como se em oração fúnebre. O corpo
ainda bem quente mas então proposto para cadáver é o seu, a
alma nele retida e naquele momento encomendada ao Criador é
a sua. Schmidt levanta-se da mesa de honra onde se sentara no
jantar em que é homenageado e dirige-se para o bar.
A partir dali esperam-no dias repletos de um vazio entediante
que lhe são proporcionados pela quebra de uma amável rotina.
Ele sabe-o e teme-o. Sabe igualmente que a vida lhe fugiu por
troca com as rugas e cabelos brancos que ostenta. E fugiu-lhe
sem que fizesse aquilo que um dia planeara para ela. Mas novos
acontecimentos, alguns inesperados outros nem tanto, obrigam-no
a abraçar uma nova causa, um novo objectivo a atingir. A sua
mulher, que acreditava não suportar, morre repentinamente e
a sua filha Jeannie (Hope Davis - «Corações na Atlântida») vai
casar com Randall (Dermot Mulroney - «O Casamento do Meu Melhor
Amigo»), um medíocre vendedor de colchões de água. E esse é
um enlace que o velho Warren decide não desejar para a filha.
Alexander Payne, realizador do filme, volta a filmar um espaço
físico que tão bem conhece e que é a cidade que o viu nascer:
Omaha, Nebraska. Mas terá Payne, que revelara ser dono de um
agudo e negro sentido de humor na sátira política «Election»
(1999), abdicado de um estilo que cativara público e crítica
pela sua argúcia e pertinência optando agora pelo melodrama
clássico? Será «As Confissões de Schmidt» um filme comovente
sobre a velhice, sobre a solidão ou, num termo mais abrangente,
sobre a existência humana enquanto percurso individual?
A resposta a ambas as questões é não mas também. Ou seja, o
filme também é o que se questiona mas vai muito para além dessas
enunciadas características. De forma subtil, Payne conduz a
narrativa de um modo sedutoramente incerto e irregular como
se numa deambulação dissimulada. Ora assistimos a uma divertida
comédia cuja vertente satírica necessita uma apurada atenção
do espectador para sua detecção, ora mergulhamos no comovente
melodrama de um filme cuja personagem principal enferma das
mais descaradas debilidades como ser humano e ao mesmo tempo
nos regozija com atributos de personalidade que nos tocam a
sensibilidade e regozijam a mente.
E nesse particular Jack Nicholson é magistral na corporização
da personagem. Regressemos um pouco ao enredo do filme e tentemos
perceber a que (fina) linhagem pertence o cinema de Payne: Schmidt
parte ao encontro da filha em Denver mas, antes da cerimónia
de casamento, acaba por fazer uma viagem solitária à descoberta
das suas raízes. Antes, durante e depois da viagem que leva
a cabo, o que vimos são as aberrações de uma América socialmente
enferma através da exaltação da vulgaridade e do mau gosto,
dos museus estranhos que visita, dos locais onde se alimenta.
Neste aspecto, o filme torna-se satírico, a crítica social é
evidente.
Por outro lado, o drama de Schmidt está patente ao longo do
filme através da sua voz off na leitura das cartas que escreve
a Ndugu, a criança tanzaniana a quem ajuda financeiramente através
de um programa de assistência social. E é somente pela leitura
dessas cartas que percebemos os verdadeiros sentimentos de Schmidt.
Ele é, afinal, um homem extremamente cínico, pormenor que se
adequa na perfeição ao cinema de Payne. Veja-se o carácter de
extrema vulgaridade de toda a família do futuro genro.
Contemple-se, como se em correspondência com o que um dia Flaubert
escreveu, como são felizes todos aqueles seres declaradamente
imbecis. E, pergunte-se, qual o modo para se derrotar os imbecis
felizes? Resposta: sendo tão imbecil quanto eles. É isso pois
que Schmidt procura fazer e esforça-se por atingir um elevado
grau de imbecilidade no discurso da festa de casamento da filha.
Com uma diferença: Schmidt faz um discurso imbecil mas não é,
não pode ser, um homem feliz. Apenas tenta a aproximação de
códigos de conduta nas antípodas um do outro.
Resumindo, «About Schmidt» é cinema melancólico, mesmo depressivo
por vezes. Retrata uma América tão brilhante quanto as pinturas
excessivas de uma puta barata na alvorada crepuscular de mais
uma noite de labor. Filme paradoxal nas emoções que transmite,
embora a aparição fugaz mas radiante de Kathy Bates nos permita
obter uma áurea de muito boa disposição, é na sua personagem
principal e na espantosa interpretação de Jack Nicholson que
residem os principais motivos para a confusão de sentimentos
que impôe.
Tão depressa somos levados a rir com gosto com as suas mais
apalermadas atitudes como nos é surripiado um olhar mais molhado
confrontados com as suas debilidades emocionais. E o que fica
no final é uma sensação poética muito forte. Uma poesia que
nos surge enraizada no quotidiano de alguém recém chegado a
uma das derradeiras encruzilhadas da vida.
Classificação: *****
Crítica de Joaquim
Lucas |