
Com Eminem, Kim Basinger, Brittany Murphy e Mekhi Phifer, realização
de Curtis Hanson (2002)
Outros Comentários:
Crítica de Joaquim Lucas
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Rap sem alma
O filme que causou alguma sensação nos EUA (o efeito Eminem)
chegou a Portugal: “8 Mile”, do realizador Curtis Hanson (“L.A.
Confidential”). Devo dizer que tinha alguns receios (que, infelizmente,
confirmei) relativamente a este filme: geralmente, a mistura
das estrelas da música com os palcos da 7ª arte causam espasmos
de incompatibilidade.
No entanto, esta mistura em particular, trazia um ingrediente
que poderia prometer alguma demarcação de “filme-para-promover-a-imagem-do-cantor”.
Esse ingrediente era, claramente, o realizador: Curtis Hanson.
E a dimensão mais interessante de “8 Mile” acaba mesmo por ser
a sua componente visual: a rugosidade das texturas e o desencanto
cromático que pulula no interior do “scope” é mesmo a melhor
forma de entrada neste filme.
De resto, parece-me que esta película acaba por ter como principal
objectivo ser uma esponja que permita limpar a imagem instável
do “rapper” rebelde Eminem – a relação com a mãe adquire aqui
uma dimensão, no mínimo, polémica. Em todo o caso, também acredito
que não é por aqui que o filme deve ser criticado; as fragilidades
narrativas de “8 Mile” são bem mais profundas que os meros equívocos
auto-biográficos (que, em boa verdade, o filme nunca assumiu).
Comecemos pela personagem de Kim Basinger: a mãe pobre que tem
de aturar as exigências do namorado (que, naturalmente, é mau
como as cobras) para conseguir pagar a renda mensal.
O filme, claramente, não mostra grande interesse pela sua personagem
(haverá alguma personagem pela qual o filme mostra um verdadeiro
interesse?) e despacha-a num “cliché” dramático sem nunca lhe
endossar uma genuína dimensão humana (não existe ambiguidade
na sua personagem; em boa verdade, não existe em nenhuma). E
é uma pena, até porque Basinger parece querer, em certas cenas,
implodir e gerar um tumulto de emoções e vulnerabilidades, mas
rapidamente a câmara desliga-se e volta às ruas para mostrar
mais um bocadinho das capacidades de agressividade verbal do
“rapper”.
Depois há também a irmã mais novinha do B-Rabbit (Eminem) cuja
presença serve apenas de máquina fungona de carpir piedade para
adocicar (ainda mais) a personagem do Eminem (é ele que corre
sempre em seu socorro). A meio da história foi introduzida a
namorada da praxe. Nada contra a beleza fatal de Brittany Murphy
que se passeia neste filme com um visual muito “tramp” que poderia
funcionar como (in)consciência dramática da narrativa (já que
a mãe parecia destinada a permanecer distante do dispositivo
melodramático central).
Ainda assim, a personagem de Murphy – a namorada fatal – é despachada
com mais um rótulo (este é mesmo um filme de rótulos) de gravador
de apoio moral que não pára de repetir ao seu namorado: “Tu
terás sucesso. Tu vais conseguir” (como sempre, trata-se de
deificar a personagem do “rapper” por mecanismos que, francamente,
parecem-me algo irritantes de tão manipuladores e elementares
– como se o espectador necessitasse de uma divisão perfeitamente
maniqueísta da narrativa para poder, sem grandes esforços, acompanhar
Eminem na sua viagem pelos guetos suburbanos de Detroit).
Aliás, a reconstrução dos subúrbios de Detroit parecem-me, claramente,
açucarados pelo politicamente correcto que fragiliza o filme,
de início ao fim (na Detroit de “8 Mile” ninguém pode usar uma
arma porque o Eminem tem medo que alguém se magoe…). Mas a falta
de coragem não se fica pela epiderme atmosférica de Detroit;
até nos conflitos de “East Side” e “West Side” com os gangs,
a visão da complexidade humana que assombra aquela geração perdida
nas ruas é despachada numa dicotomia perfeitamente simplista
e maniqueísta – o gang de Eminem é construído, desde o início,
para o espectador simpatizar (são todos engraçados, embora perfeitamente
académicos) enquanto o gang rival é constituído por uma colecção
de porcos acéfalos e maléficos.
Será que é mesmo necessário haver este tipo de distinção e manipulação
para o espectador perceber de que lado tem que estar (em abono
do rigor, porque razão terão que existir lados de simpatia?
Não estará isso intrínseca e visceralmente ligado às ambiguidades
e vulnerabilidades de cada corpo do filme que, inexoravelmente,
simbolizará as nossas várias complexidades humanas?). Por outras
palavras: não serão, precisamente, as vulnerabilidades e defeitos
que mais nos aproximam do sofrimento dos outros? De facto, não
há equívoco nenhum: a única personagem que interessa mesmo para
o filme é a de Eminem. É ele que tem de carregar com o filme
às costas durante as quase duas horas que “8 Mile” dura.
Existe no filme, alguns laivos interessantes do mecanismo melodramático
clássico, embora não assuma a coragem de mergulhar nas vertigens
das suas próprias personagens. A revolta que B-Rabbit tem dentro
dele, acaba por nunca ganhar pulmões para sair cá para fora
– muito por culpa da depuração moral que a sua personagem acaba
por receber (é impossível crer na revolta e inconformismo interior
de uma personagem que tem a orientação moral do super-homem).
No fim de contas, as especificidades do arquétipo suburbano
de Detroit e do seio familiar de B-Rabbit resumem-se a meia-dúzia
de rixas entre miúdos que se gladiam com o objectivo de encontrar
aquele que melhor insulta (aliás, o hip-hop acaba por ser reduzido
a este único propósito, infelizmente muito “eminemiano”; mesmo
o poder de revolta que tenta patentear nas letras das músicas
acaba por ter uma dimensão de mero rodapé narrativo). Aliás,
creio mesmo que a revolta sócio-cultural que poderia perfumar
a atmosfera deste filme é, em tudo, semelhante à sequência em
que B-Rabbit e os amigos disparam tiros de tinta a um carro
da polícia. E a revolta de “8 Mile” acaba por ser isso mesmo:
tiros de brincar.
«8 Mile» **
Crítica de Tiago
Pimentel |