
Com Pierce Brosnan, Samantha Bond, Halle Berry, Judi Dench e
John Cleese, realização de Lee Tamahori (2002)
TRAILER
Outros Comentários:
Crítica de Joaquim
Lucas

27% *****
19% ****
14% ***
11% **
30% * |
Ele já foi Sean Connery, Roger Moore, Timothy
Dalton e é, agora, Brosnan: Pierce Brosnan. “007 – Morre Noutro
Dia” é o quarto filme da Era Brosnan, uma época fraquita que
começara com a estopada política que era “Goldeneye” e acinzentava-se
com outros pechisbeques (excepção feita a “Tomorrow Never Dies”)
que em nada ajudava a glorificar as memórias dos Bond clássicos
(sobretudo os de Sean Connery). Como sempre, o “background”
narrativo de pouco interessa: tudo começa na zona desmilitarizada
entre a Coreia do Norte e do Sul, com uma sequência de acção
a bordo de um “hovercraft” com a espectacularidade que já se
tornou também um cartão de entrada nos filmes-Bond.
Mas a cor deste novo Bond é mesmo o branco: do gelo. Como sempre
traz novos equipamentos com tecnologia de ponta: um automóvel
que desaparece literalmente do horizonte, um protótipo neuro-induzido
com a capacidade de materializar virtualmente os nossos sonhos
mais recônditos e uma Halle Berry que, depois do ódio, reaparece
com todo o seu “glamour” e preserva a beleza felina da antologia
das “bondgirls”. Quanto a Pierce Brosnan, devo dizer que me
parece ser o melhor e mais refinado Bond, a seguir a Connery.
É importante perceber que se trata de uma personagem que tem,
acima de tudo, que encarnar uma dimensão de galã sem, no entanto,
expor em demasia qualquer tipo de vulnerabilidades humanas (daí
que Timothy Dalton, apesar de conotar o agente secreto com uma
dimensão humana invulgar, sempre fora uma escolha desenquadrada
com os objectivos da personagem). Em termos muito simples, creio
que este é, a par de “Tomorrow Never Dies”, o melhor filme bondiano
da Era Brosnan.
Claro que é impossível bater o “glamour” de clássicos como “Goldfinger”
(possivelmente, o mais magnífico Bond alguma vez feito); mas
é, sem dúvida, um regresso muito positivo à dimensão espectacular
e despreocupada que sempre aflorou a estética de acção desta
saga interminável de filmes – longe das preocupações políticas
pateticamente caricaturais e simplistas de “Goldeneye”. Mas
o que importa é que Bond está de volta, finalmente num filme
que consegue alguma coesão interna sem precisar de recorrer
a (im)precisões histórico-políticas. Aliás, a faltar alguma
coisa a estes novos Bond, são vilões como deve ser, em vez de
serem figuras de cera recortadas dos piores modelos televisivos
de policiais de 2ª categoria. Mas falar de Bond é, também, falar
de música.
Madonna foi a responsável pela 4ª música da nova Era desta saga
– Madonna que tem, também, uma curiosa e breve aparição no filme.
Tina Turner inaugurava a fanfarra “bondiana” com tonalidades
que oscilam entre a sedução e o fatalismo em “Goldeneye” – ingredientes
mais que apropriados à ambiguidade fatal do universo do agente
de Sua Majestade. Sheryl Crow recebeu a responsabilidade da
canção para “Tomorrow Never Dies – O Amanhã Nunca Morre” e levou
a musicalidade sedutora a limites de invulgar sensualidade,
criando (talvez, a par da música de Madonna) a melhor canção
da nova Era.
Aliás, se parece haver algo que nunca falha (mais: são quase
sempre objectos de raro valor artístico) são as canções. Os
Garbage não faltaram à regra e a canção de “The World Is Not
Enough – O Mundo Não Chega” era um prodígio de sensualidade
e remissão a uma dimensão clássica da sonoridade bondiana. Assim,
Madonna é a mais recente aquisição deste “franchise” musical:
“Die Another Day” é, também, uma reinvenção da sonoridade dos
filmes; é muito mais “techno” e “violenta” que as outras, ao
mesmo tempo que preserva as raízes libidinosas na sensualidade
dos seus ritmos.
Muito se aprende de um filme bondiano através do exotismo dos
seus sons: a canção é sempre a porta de entrada para a atmosfera
específica do filme. Feitas as contas, "Die Another Day" é o
regresso em definitivo das memórias mais positivas que ainda
nos habitam do célebre espião ao serviço de Sua Majestade. Pede-se
que o próximo seja mais um avanço no sentido "Die Another Day"
e não um passo atrás, na direcção de "Goldeneye".
Classificação: ***
Crítica de Tiago
Pimentel |